A escala Celsius, hoje adotada por quase todo o planeta, nasceu de um astrônomo sueco e passou por uma reviravolta que o próprio criador jamais imaginou.
Anders Celsius nasceu em 1701 em Uppsala, na Suécia, numa família de astrônomos e matemáticos — seu avó paterno, Magnus Celsius, também foi professor de astronomia na mesma universidade onde Anders mais tarde lecionaria, e seu avó materno era matemático. Crescer cercado por essa tradição científica moldou cedo o interesse do jovem Anders, que ingressou na Universidade de Uppsala ainda na adolescência e se tornou professor de astronomia por lá aos 29 anos, uma posição notavelmente jovem para a época.
Ao longo da carreira, Celsius viajou extensamente pela Europa, visitando observatórios importantes na Alemanha, Itália e França, e participou de uma expedição científica à Lapônia em 1736 que ajudou a resolver um dos grandes debates científicos do século: se a Terra era ligeiramente achatada nos polos ou alongada, conforme previsto pela física de Newton. As medições da expedição confirmaram o achatamento polar, dando a Celsius reconhecimento internacional bem antes de sua contribuição mais famosa — a escala de temperatura.
Em 1742, Celsius apresentou à Real Academia Sueca de Ciências uma escala de temperatura baseada em dois pontos fixos e fáceis de reproduzir em qualquer laboratório do mundo: o congelamento e a fervura da água pura ao nível do mar. A escolha não foi acidental — Celsius queria resolver um problema prático real da ciência da época, que era a falta de padronização entre termômetros de diferentes fabricantes e países, cada um usando pontos de referência próprios e muitas vezes incompatíveis entre si.
A curiosidade histórica mais conhecida sobre Celsius é que sua escala original estava invertida em relação à que usamos hoje: ele definiu 0 grau como o ponto de ebulição da água e 100 graus como o ponto de congelamento — exatamente o oposto da lógica atual. Existem registros históricos sugerindo que essa escolha tinha uma razão prática: evitar valores negativos nas medições típicas do clima sueco, já que quase todas as temperaturas do dia a dia ficariam entre 0 e 100 nessa configuração invertida.
Foi só depois da morte de Celsius, em 1744 — ele morreu jovem, aos 42 anos, provavelmente de tuberculose —, que o botânico sueco Carl Linnaeus (o mesmo responsável por criar o sistema de classificação biológica que usamos até hoje) inverteu a escala para o formato que conhecemos: 0 para o congelamento, 100 para a fervura. Alguns historiadores atribuem essa mudança também a outros cientistas suecos da época, como Daniel Ekström, fabricante de instrumentos que pode ter feito a inversão de forma independente para facilitar a fabricação de termômetros.
A escala recebeu oficialmente o nome "Celsius" apenas em 1948, por decisão da Conferência Geral de Pesos e Medidas — antes disso, era comumente chamada de escala "centígrada", já que dividia o intervalo entre os dois pontos de referência em exatos 100 graus. Hoje, a escala Celsius é definida oficialmente em termos da escala Kelvin dentro do Sistema Internacional de Unidades, o que significa que seus valores são derivados de constantes físicas fundamentais, não mais diretamente do ponto de congelamento e fervura da água como na definição original — embora esses valores continuem extremamente próximos na prática.
Celsius nunca chegou a ver sua escala se tornar o padrão dominante que é hoje: no auge de sua carreira, diversas escalas de temperatura concorrentes disputavam espaço na Europa, incluindo a Fahrenheit (já popular em partes da Europa antes de se tornar praticamente exclusiva dos Estados Unidos) e a escala de Réaumur, amplamente usada na França e na Rússia até o século 19. A vitória histórica da escala Celsius se deve, em parte, à sua adoção pelo Sistema Métrico Francês e, mais tarde, pelo próprio Sistema Internacional de Unidades — um exemplo de como decisões de padronização institucional podem determinar, ao longo de séculos, qual convenção científica sobrevive e qual desaparece.
Hoje, a escala Celsius é usada oficialmente por praticamente todos os países do mundo, com exceção de um pequeno grupo que mantém a Fahrenheit como padrão cultural predominante, principalmente os Estados Unidos. No Brasil, a escala Celsius é universal — está em toda previsão do tempo, todo termômetro clínico e toda receita culinária. É um lembrete curioso de que uma convenção nascida de um problema prático de laboratório no século 18 sueco viria, séculos depois, a moldar a forma como bilhões de pessoas em todo o planeta descrevem algo tão cotidiano quanto "está calor hoje".